O Homem é a sua interpretação. O ato de interpretar define tudo o que está relacionado ao Homem. Neste texto, abordarei uma pequena parte: a personalidade.
A interpretação consiste em coletar informações, compará-las com que as que já se possui (valores) e emitir um juízo associado às informações coletadas. O processo, "na prática", inicia-se no momento da comparação das novas informações com as que já se possui (valores).
Resumindo: Fato -> Interpretação do fato baseada em pensamentos/convicções/valores -> juízo emitido.
Um casal, morador de um apartamento na Tijuca, trabalha diariamente em locais diferentes. Enquanto o homem chega em casa normalmente às 18h, a mulher chega em casa normalmente às 19h. Em uma segunda-feira, a mulher chegou em casa e não encontrou seu marido. Automaticamente, tornou-se inquieta. Mesmo assistindo a um programa na TV, constantemente levantava-se e olhava pela janela na esperança de avistar o marido.
Uma segunda mulher, na mesma condição, mantem-se calma e liga para uma amiga enquanto o marido não chega.
Qual a diferença entre as duas mulheres? As respectivas interpretações.
Enquanto a primeira possui o seguinte pensamento/convicção: meu marido está atrasado porque ocorreu algum acidente envolvendo-o; a segunda mulher possui o seguinte pensamento/convicção: meu marido está atrasado porque tem muito trabalho ou está preso em algum engarrafamento.
Considerando que a personalidade não é um atributo inerente ao Homem, mas algo dado a ele após um "consenso democrático" entre as pessoas ao seu redor; enquanto a primeira mulher seria considerada uma pessoa insegura e ansiosa, a segunda mulher seria considerada uma pessoa segura e confiante por mim e, provavelmente, por você, leitor.
Toda a interpretação humana depende de idéias/pensamentos/convicções, muitas vezes inconscientes, que determinam o comportamento de uma pessoa em uma determinada situação.
Baseado no esquema de Ellis, darei o exemplo de uma reunião de um grupo de estudantes.
Buscando organizar a apresentação de um trabalho de Economia, 4 estudantes reunem-se na biblioteca da faculdade em uma tarde de quarta-feira. A proposta é levantar o máximo de idéias possíveis, discuti-las e organizá-las.
Enquanto dois estudantes seguem a proposta firmemente, os outros dois raramente expressam alguma opinião, sendo apenas ouvintes durante a maior parte do tempo. O que diferencia esses 2 subgrupos de estudantes? Novamente, a interpretação.
Grupo 1 - estudantes seguros
Grupo 2 - estudantes inseguros
Quais são os prováveis pensamentos/convicções que os estudantes do Grupo 1 possuem? "Tenho a minha contribuição a dar.", "Todas as idéias são aceitáveis.", "Quanto mais se troca, mais se avança", "O que vier é lucro" etc.
Tais pensamentos/convicções afetam diretamente o comportamento desses estudantes, tornando-os participativos na conversa e permitindo-os que desenvolvam suas opiniões e discordâncias. Além disso, geram emoções que estarão associadas a tais comportamentos; por exemplo, orgulho, alegria, satisfação etc.
Ou seja, os estudantes interpretam o acontecimento (aprontar um trabalho de Economia) com convicções positivas, gerando um comportamento positivo perante o grupo. Diante de tal comportamento, observadores desse grupo descreveriam esses 2 estudantes como seguros e confiantes.
Em relação ao Grupo 2, quais serão seus prováveis pensamentos/convicções? "Vou dizer uma bobagem, o que seria horrível.", "Eu não possuo idéias tão interessantes quanto as de fulano" ou (em casos extremos) "Os outros são mais interessantes do que eu, logo não tenho muito a acrescentar." etc.
Novamente, tais pensamentos/convicções gerarão uma emoção negativa (ansiedade, apreensão, nervosismo), ocasionando um comportamento negativo, ou seja, os outros 2 estudantes participarão pouco da conversa e, quando participarem, será de maneira breve. De bônus, a respiração ficará bloqueada, a garganta dará um nó e por aí vai.
Perante os observadores do grupo, os estudantes do Grupo 2 serão considerados inseguros, medrosos, ansiosos...
Fato -> Interpretação do fato -> Emoções -> Comportamentos ou juízos -> Personalidade
Por fim, a personalidade não passa de uma resposta constante dada por indivíduos aos comportamentos de um indivíduo, isto é, a forma com que interpreta o mundo.
"A vida é um eterno teatro que nunca se consuma."
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